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O dia em que Ferris Bueller matou aula é um respiro na quarentena

Atualizado: Jul 7

Curtindo a Vida Adoidado faz parte da nossa memória coletiva e também não faz. Os comerciais interrompem pelo menos três vezes os filmes da Sessão da Tarde e, por consequência, também deixam fragmentadas as nossas memórias sobre eles.


Mas a culpa não é só da Rede Globo. Ferris Bueller's Day Off é um tanto caricato mesmo, o título em português também não contribui e a gente acaba chegando aqui com essa lembrança muito vaga de um adolescente tipo-italiano que apronta todas e interage demais com a câmera.


Porém, como geralmente acontece com os clássicos, o slogan de Ferris ganha novas cores com a nossa condição de isolamento e viver a vida adoidado, em vez de vê-la passar, é a maior mudança que 1 em cada dois quarentenados deseja promover quando o apocalipse passar.




É com esse espírito, então, e na companhia alto astral do trouble maker popular, que começamos uma jornada pelo centro de Chicago. São os anos 80 embrionado já o que seriam os 90: depois do monólogo de abertura, assistimos logo uma propaganda de TV, um serrote cortando uma televisão de tubo que exibe, depois de partida ao meio, a logo da MTV. A propaganda é um produto do próprio canal que, na vida real, acabava de nascer.


Em 1986, a MTV ainda não era um canal de clipes e de VJs, exibia principalmente realities e comerciais ousados, que já posicionavam o canal como ‘mais do que televisão’. É claro, depois das reviravoltas dos anos 70, a televisão até perdia a aura de objeto inofensivo, mas ser hippie e desconectado já não valia a mesma coisa. A publicidade também ganhava novos contornos - vendendo modos de vida mais do que produtos e Ferris aparece bem aí, como esse super-herói adolescente vivendo o ano 6 da década em que ser descolado passava a ser importante.


O adolescente que conhecemos no início do filme é abusado, convencido e, gostemos ou não, bastante mentiroso. Mas também existe esse contrato, um pacto. Ferris só mente para os adultos e com uma finalidade nobre: tirar Cameron da cama. A gente vinha falando sobre Curtindo a Vida ser um filme caricato, e a saúde de Cameron é um bom exemplo desse artifício que o filme usa, às vezes bem, às vezes mal.


A cena de Cameron na cama talvez tenha passado tranquila nos anos 80, mas hoje, elaborado o debate sobre depressão, ela pode cair meio mal. Embora as críticas da época descrevessem Cameron como hipocondríaco, nós sabemos que aquilo que o impede de sair da cama é mais do que uma doença imaginária, um drama adolescente. A vida em isolamento também nos torna mais sensíveis, é possível, à condição do personagem.


Mas o próprio filme vai corrigindo a caricatura e nos mostra, aos poucos, a dificuldade de Cameron. A partida no carro parece impossível, o tapa no telefone significa “deliberadamente magoar os sentimentos” de Cameron, percebemos aos poucos a complexidade do que o adolescente enfrenta, cenário que jamais aparece na tela a não ser pela cena impecável de Matthew Broderick no banheiro do restaurante




À essa altura, estamos pela metade do filme e a quarta parede já foi quebrada inúmeras vezes. Ferris fez seu monólogo de abertura há 40 minutos e o diretor da escola já se tornou o Dick Vigarista (ou a Pantera Cor de Rosa, como queira) à sua procura. É no ápice, portanto, que embarcamos de vez na viagem que Ferris planejou para nós, cúmplices de crime que nos tornamos desse herói.


A primeira parada é o jogo de futebol. Ensolarado, cheio, com comidas na arquibancada e Cameron feliz demais para notar o dedo talvez quebrado de Ferris Bueller. Na sequência, vem o museu, com crianças de mãos dadas, poses, e muitos, muitos frames em que a gente pode ver os quadros do Art Institute of Chicago - um a um ou aos pares.


E então vem a parada. No nosso caso, o ápice do respiro. Temos na tela tudo o que não temos em pandemia: evento público na rua, multidão. O filme nos trouxe até aqui, tão animados, que tudo bem esse rompante de musical de repente. Ferris Bueller performando sem medo ante a multidão é grandioso como deve ser a comprovação da sua teoria: é possível, sim, fazer o que você quiser. E recompensador, sobretudo. Dançar com Twist and shout é só uma resposta do instinto.


A estética do filme adolescente vai acompanhar John Hughes ainda em Clube dos Cinco e Gatinhas e Gatões. Mas a filmografia é extensa, passando por Esqueceram de mim, Os 101 Dalmatas, Bethoven, entre outros inesquecíveis. Talvez o diretor tenha criado ele mesmo a Sessão da Tarde e a gente ainda não descobriu.


Sei que das exibições da Globo, eu guardava só a memória da Ferrari atravessando a parede de vidro, deveras especial. Como o evento ultra hollywoodiano se relaciona com a sua quarentena? O filme tem 34 anos, mas não seria justo entregar tudo de uma vez.


Ferris Bueller’s Day Off está disponível na Netflix. O Spotify tem a trilha sonora.




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