head do post 2.png

Eu tenho me confessado com o Keith Jarrett

Deve ter quase 3 meses mais ou menos que vou me confessar com o Keith Jarrett todos os dias. Eu coloco os fones, aperto play no icônico "The Koln Concert" e abro meu peito, enquanto o pianista norte americano explora o magma do improviso e o resultado ecoa ao piano, com incontestável poder de cura.


Mesmo sem dizer uma palavra, Keith nos reconforta de maneira transcendental, apoiando-se 100% na lírica de seu som instrumental. Ao curso de 4 temas, o pianista norte americano que conduz sua verve entre os meandros da improvisação, música erudita e o Jazz, parece estar em busca de um algo a mais que é difícil de descrever, mas que definitivamente marca presença nessa performance.


Esse disco é uma das maiores gravações ao vivo de todos os tempos. É um registro absolutamente insular, além de ser o trabalho de piano solo mais vendido da história. Quem conhece o Keith sabe que ele não é um padre, mas sua música - e esse projeto em particular - tem sido o meu refúgio (como se fosse uma missa dominical), em tempos de puro overbook cerebral.





A mística do "Koln Concert" é que trata-se de um disco ao vivo, mas as composições foram todas feitas na hora, no improviso. Vale lembrar que nessa época o pianista (que já trabalhou ao lado de lendas como Miles Davis, Art Blakey e Gary Peacock - só para citar alguns), vivia um de seus picos criativos, de forma que assistir uma performance de sua autoria era de fato um acontecimento. 


Lançado em 1975, em formato de LP duplo pela ECM, o que mais impressiona e justifica o brilho desse trabalho, mesmo 45 anos depois, é que apesar do improviso, as faixas surgem com a precisão de um show absolutamente roteirizado, composto de fato.


O que ouvimos é um músico entregue ao seu instrumento. Intenso, conectado e valorizando as pausas, Keith surgiu nu, pelo menos em termos estéticos, preparado qualquer coisa, pronto para conduzir um show de que ele mesmo não sabia o que esperar.


Essa era a proposta, o desconhecido. Mas o que acontece é um flerte com a certeza e a liberdade dentro da linguagem de um compositor de fato genial e que, apesar do virtuosismo, mostra uma sensibilidade indescritível.


São 66 minutos de ininterrupta musicalidade. Entre murmúrios e longas notas (como quem emula um baixo), Keith faz o ouvinte flutuar e a impressão que fica depois do play é que todas as mazelas foram embora, junto com o sofrimento que trouxe a necessidade do sacramento pela penitência. 


Que Padre Marcelo, que nada, papai. Obrigado, Keith muito obrigado. 


Por Guilherme Espir




1 visualização
 
  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • Branca ícone do YouTube

Assine a Newsletter:

Coisas de Ouvir!

© 2020 by Cristiano Ramos