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Cozinhando no banho maria da Octópode · especial Octópode · Guilherme Espir

Aqui no Tapete, a Octópode é prata da casa. A banda faz parte do nosso casting e o seu primeiro EP acabou de fazer um ano. Para comemorar, o Tapete Voador organizou um especial, convidamos especialistas para fazer análises críticas e comentar o trabalho, que foi lançado em 29 de junho de 2019. Confira a primeira de uma série de três críticas que serão publicadas sobre o disco. Essa, a seguir, é assinada pelo Guilherme Espir.



A música é uma alquimia. Ela faz todas as artes convergirem sob uma única ótica. Musicando os passos da humanidade, o som conta histórias, eterniza momentos e vira a trilha sonora de climas dignos de moldura.


Nesse processo artístico, o balaio criativo é o norte para as incursões experimentais. Toda banda passa por esse processo embrionário de encontrar sua sonoridade de fato. Achar a dinâmica ideal, entender como promover interações, é tudo parte de um etapa que precisa ser vencida.


Como resultado dessa peregrinação, surge o autoconhecimento, além do óbvio entrosamento, não só musical, mas também ideológico, entre os meliantes envolvidos. No play, tudo isso fica claro: o trabalho duro, os anos de corre, está tudo lá, é a essência da gravação. A dificuldade é captar isso tudo.


Acontece do underground ao mainstream. As maiores bandas da história tiveram essa mesma dificuldade. O Grateful Dead, por exemplo (um dos pilares do Rock Psicodélico dos '60 na Bay Area de São Francisco), sofreu muito com isso. Pode ver que a maioria dos discos do grupo são ao vivo, justamente por essa sensação de prisão que eles sentiam em estúdio. Demorou, mas eles acertaram a mão a partir do terceiro trampo, o competente "Aoxomoxoa", lançado em 1969.


Mas por que diabos estou falando sobre isso? Fiz essa ponte pra valorizar o trabalho independente de um grupo de Londrina chamado Octópode. O trio, formado por Daniel Loureiro (guitarra/flauta), João Yamamoto (baixo/voz) e Lucas Figueiredo (bateria), gravou um dos EP's mais interessantes da cena nacional nos últimos tempos. A naturalidade do trio na hora de eternizar as composições que formam o EP impressiona bastante e, detalhe,foi tudo gravado ao vivo e analogicamente!


Com a produção de João Ribeiro, Lisciel Franco na engenharia do groove, o projeto foi gravado no ForestLab Gravação e, apesar do formato de EP, são quase 50 minutos de som, distribuídos em 6 sinuosos temas.


A chapante arte de Lucas Klepa (baixista da Red Mess) já dá uma prévia do que vai rolar, mas mesmo assim o play surpreende. A abordagem serena e o desenrolar do instrumental valoriza bastante o aspecto harmônico do som e a faixa de abertura já mostra esse approach com seus mais de 8 minutos.


Nota-se uma atenção muito importante com a clareza dos instrumentos, pensando na qualidade da audição. É prog, Rock 'N' Roll, tem referências do Jazz, chega no swing do groove, mas também vem com aquela veia psicodélica.


Os sons surgem como jams pinceladas no reflexo de uma capela de vitrais. Ele cria mosaicos, relaxa, tensiona e impressiona pelos desfechos, além da volatilidade das concepções. "Relva Mística" e "Lótus", por exemplo, são temas extremamente alongados (ambos superando os 10 minutos de viagem), mas nem por isso são passagens monótonas, muito pelo contrário.


É possível pinçar referências estéticas do Folk, mas o ouvinte é sempre surpreendido pelas mudanças. É esse quente e frio com luz e sombra que faze a cabeça dessa onda sinestésica. O trampo de timbres merece destaque também: tem um momento, na já citada "Relva Mística", em que parece que a bateria faz um feat com a maquininha do seu dentista.


E a flauta que faz a cama dos harmônicos em "Lótus"? A formação da banda - pensando em termos de instrumentação, também é bastante interessante. O teclado foi muito bem explorado, além da já citada flauta, guitarra, baixo e bateria.


Nada se perde nesse som. Os vocais funcionando como alegorias. A força das ambientações é pungente e enquanto som cai para o Jazz, volta para o Rock ou apenas debocha no Funk, o ouvinte se deleita no mar de referências.


E para mostrar que o trio se acha também em composições mais compactas, "Coração de Fogo" e "Variações Sobre a Lenda do Saci Perére" surgem pra deixar aquele gostinho de Brasil nos seus fones. Um baião hermético com abordagem ritualística pra ninguém botar defeito e luxuriosas texturas de guitarra antes do encerramento, com uma versão alternativa do primeiro som.


A condução do Lucas Figueiredo, a guitarra Jazz de Daniel Loureiro - além de sua bucólica flauta - e o baixo e voz do João Yamamoto são muito prudentes. Todos os instrumentos se respeitam no som, não existe mero exibicionismo e é notável como todos tocam em prol da experiência.


É música orgânica, ao vivo e com gravação analógica. Tem como dar errado não, papai.



Por Guilherme Espir Foto: Lucas Werner

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