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Caburé Canela: entre a loucura e a unidade

Parece que a falta de plateia não foi um problema para o Caburé Canela. A banda encerrou o primeiro sábado do Festival Barbada em um show impecável, que permitiu enxergar camadas novas de seu trabalho. Um show sobretudo bonito e complexo, que soube se adequar ao formato online, imposto pela pandemia.


É inegável o tamanho da vocalista Carolina Sanches nessa apresentação. Em outros shows, com menor estrutura técnica, era comum escutar pouco de sua voz suave. Mas isso não aconteceu no sábado, quando vimos uma vocalista presente, temperando as letras do Caburé em cada detalhe. Uma performance sólida e rica, multicolorida.



Carolina Sanches multicolorida no palco da Barbada | Crédito: Allan Puzzy


Penso que Carolina foi figura central desse show do Caburé, mas é importante falar sobre toda a linha de frente da banda. Carol canta ao lado Pedro José, à sua esquerda, e Lucas Oliveira, à direita, e assim fica parecendo que vemos os dois lados de uma mesma moeda. Quando divide a interpretação com Pedro, que também toca guitarra, violão e clarineta, o show ganha uma dimensão surreal, teatralizada, há gritos, falas desconexas, as vozes parecem exploradas de modo mais diverso, chegamos bem perto do bizarro.


Quando divide a interpretação com Lucas, entretanto, a coisa parece mais aterrada, cíclica, circular. Eu, que vejo sempre o tarô aqui e ali, enxergo O Louco no encontro de Carol e Pedro, e vejo O Mundo, o arcano da totalidade, no encontro de Lucas e Carolina. Além de cantar, Lucas também toca violão e teclado ao longo do show.


E por falar em teclado, parece que tem alguma coisa tecnológica meio recente no show do Caburé. Mais alguém percebeu os efeitos? Talvez seja uma dica sobre os caminhos do disco novo, que a banda deve gravar (de modo anológico, pelo que se sabe) nos próximos meses.


É importante, ainda, destacar a retaguarda do Caburé Canela. Mariana Franco, no baixo, Paulo Moraes na bateria e Maria Carolina Thomé, na percussão, garantem o nosso chão, fazem a macumba que a gente dança. São eles que puxam a plateia para esse lugar na terra - ainda que a plateia seja virtual. Indispensável lembrar da criatividade dessa percussão do Caburé, da sutileza com que Carolina Thomé vai colocando perguntinhas na cena, adicionando camadas de som e ativando mesmo os ouvidos do público.


O show faz pensar que o lugar ideal do Caburé Canela é o lugar onde a gente possa escutar bem. E se todos nós adoraríamos ter assistido ao show no meio de uma boa aglomeração, a banda não saiu devendo nada à tela. Ao contrário, veio como uma sopinha quente num dos dias mais frios de 2020 e demonstrou até intimidade com o ambiente online. Fizeram bonito.


O Show do Caburé Canela no Festival da Barbada pode ser assistido na íntegra aqui. Acompanhe a programação do Festival e as reflexões do Tapete Voador. No próximo final de semana se apresentam duas bandas do nosso casting, a Sala de Estar e o Aminoácido. E nós já escrevemos impressões sobre o show da Etnyah e do Abacate Contemporâneo.


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