head do post 2.png

Feito de corpos e paisagens, Caburé Canela atravessa 5 países para nos dar Oceano, seu novo clipe

O trabalho do Caburé Canela sempre me remeteu à madeira e especiaria. Lembro que, em 2016, alguém descreveu a banda como orgânica, natureba - espero não estar me confundindo. E embora isso não diga muita coisa sobre a natureza de um trabalho musical, consigo entender o argumento.


No século da maquinaria e da velocidade, o Caburé parece que nos convoca a um tempo lento de apreciação. Isso não significa que o trabalho seja leve ou passivo. Ao contrário, o signo da Caburé Canela é profundo, escuro até, bastante misterioso.


Então foi um acerto o olhar que a artista galega, Judith Adataberna, aplicou à produção do clipe de Oceano, lançado pela banda há um mês, em seu canal do YouTube. A estética analógica e pouco saturada, até pálida em alguns momentos, contrasta com a cúrcuma, vermelho vivo, soprada aqui e ali, pintando rostos.


As bailarinas aparecem às vezes em close, em olhares diretos e gestos mínimos. Outras vezes surgem distantes, pequenas na paisagem imensa e surreal, que é também uma das belezas do trabalho. As cenas foram gravadas na Galícia, na Espanha, passam por uma mina a céu aberto em Portugal, e chegam enfim à América Latina, com imagens da Cordilheira dos Andes, da Bolívia, do Peru e do deserto do Atacama, no Chile. É tudo imenso, no clipe de Oceano, tudo hipnotizante.


Entre contrastes e provocações, o trabalho nos deixa meio desconcertados e, ao final, parece que não pertence a lugar nenhum. O que é excelente, porque nos suspende.


O Tapete Voador fez algumas perguntas para o Caburé Canela e você pode conferir essa conversa a seguir. O clipe de Oceano está disponível ao final da entrevista.


Caburé Canela no Festival Resistência Pirata em 2019 (Foto: Vitor Pedrassoni)

Tapete Voador (Isabela Cunha): Eu vi, em algumas matérias, que o clipe foi gravado em 5 países diferentes e produzido pela Judith Adataberna, da Espanha, por conta dessa proximidade dela com a Carol (Carolina Sanches, vocalista). Queria saber como aconteceu o clipe, se foi uma encomenda do Caburé, uma iniciativa da Judith, como ele foi concebido?


Caburé Canela: No meio do ano passado, Adataberna fez um clipe muito foda para a Cruhda, uma banda madrilenha. A Carol mostrou para o grupo, pois a estética era muito diferente, bem mística e misteriosa. Nós gostamos logo de cara do trabalho e propusemos que ela também fizesse um clipe de uma música nossa . Ela topou e prontamente nos mandou um roteiro inicial para Oceano.

Já nas primeiras conversas sabíamos que ela faria uma viagem pela latinoamérica, e só pelas imagens que poderiam surgir dessa viagem, já cogitamos que nos renderia uma viagem juntos, sem nem ter saído de casa.


TV: Embora ele tenha uma estética bem diferente do primeiro clipe de vocês, da música Sem, os dois clipes têm em comum essa coisa do corpo, a presença da dança, da coreografia. Vocês estabelecem paralelos entre os dois trabalhos? Se a gente for pensar numa "clipografia" do Caburé Canela, dá pra estabelecer uma comparação?


Caburé: Os dois clipes têm estéticas muito diferentes, enredo, história e até mesmo as atuações. Com a Judith, nessa comunicação e produção artística à distância, já imaginávamos que seria algo diferentão do que estamos acostumados a ver aqui no Brasil, mas ela conseguiu nos surpreender mais do que pensávamos.

Além dos corpos dançando, a busca por paisagens também aponta algo em comum entre os olhares dos dois artistas que produziram clipes com a gente. Mas os processos desses trabalhos são tão únicos que pode soar ingênuo uma análise por esse caminho, comparando.

Acreditamos que a potência dessas produções está justamente na diversidade de cada linguagem e do olhar individual que cada um pode ter para com a nossa música.

No fundo, o fio condutor da “clipografia” da Caburé Canela é a própria música, nossas paisagens sonoras, referências misturadas, os ritmos controversos, as bifurcações que todo um rio de raízes pode provocar.

Produzir um clipe onde damos total liberdade para quem faz é uma forma de se abrir ao novo. E por esse caminho, com o olhar e a percepção do outro, sempre acabamos sendo presenteados com novas possibilidades – ou interpretações - dentro do que já existia. Isso é muito rico.

TV: O clipe foi produzido alguns anos depois de vocês terem lançado o CD, e parece que ele tem mesmo uma vida meio própria, uma "independência" da canção, mas uma relação ao mesmo tempo. Queria que vocês comentassem um pouco sobre essa relação do vídeo com a música, que significações surgem agora que o clipe "recupera" a Oceano novamente?


Caburé: Nosso processo de criação é bastante lento, e nesses anos todos estamos tentamos acolher, na medida em que também conhecemos, nosso próprio ritmo de produção. De certa forma, quando um trabalho vem à tona, ele já está mais lapidado, mais firme e consegue se aproximar de algo que entendemos como pronto. No fundo, só chega mais perto, porque pronto nunca está.

Mas é nesse caminho vagaroso que existe a possibilidade da nossa própria reinvenção. E a independência da canção que você reconhece (pensando que o álbum foi lançado em 2018 e dois anos depois ainda estamos produzindo clipe de músicas dele) é um ponto bastante interessante. Pois a música, a forma, execução e a reprodução dela, com o tempo, apresenta limites que nós mesmos estabelecemos involuntariamente, por estarmos submersos. E quando surge um clipe, é como se ele reavivasse a música, adentrando a mensagem que ela já passava, ao mesmo tempo em que inaugura uma nova forma de se olhar para ela.

Nesse sentido, o clipe, além de complementar a mensagem da música, aponta para novos horizontes dela que estavam camuflados. Oceano, além de se materializar na distância das relações, dos corpos, dos países, das paisagens intocáveis que nunca estivemos lá juntos, do mar, enfim, realoca física e psicologicamente o contexto inicial da música, rompendo a primeira memória que tínhamos e ampliando as perspectivas dela. No fundo, esse novo desaguar imagético é, uma vez mais, um grande nascimento criativo.





Por Isabela Cunha

157 visualizações
 
  • White Facebook Icon
  • White Instagram Icon
  • Branca ícone do YouTube

Assine a Newsletter:

Coisas de Ouvir!

© 2020 by Cristiano Ramos