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Abacate Contemporâneo e a assepsia do presente

Sabendo que o show é do Abacate Contemporâneo, o público londrinense geralmente espera duas coisas: dançar bastante na pista e ser surpreendido pela performance da vocalista Raquel Palma. De que modo ela vai nos chocar dessa vez é sempre uma pergunta que ronda.


No palco da Barbada, sem uma plateia que pudesse corresponder à energia da banda, Raquel colocou em cena uma figura nova e veio de cabeça enfaixada, como que se recuperando de uma cirurgia plástica total.


Raquel Palma (vocal) e Sara Delallo (baixo) | Crédito: Allan Puzzy


É claro que o conteúdo central do Abacate Contemporâneo, sua matéria prima, é o Brasil na América Latina e a crítica social e política que se desenrola a partir daí. O show trouxe de início uma música nova, Circo Pegando Fogo, abordagem direta sobre o 29 de Abril em que os professores do Paraná foram bombardeados em frente à Assembleia Legislativa do estado. O show teve o “Fora Bolsonaro”, lembrou das meninas vítimas de abuso sexual e mesmo a música Do Lado de Lá, também nova e igualmente crítica, entrou no repertório (a composição, aliás, é uma parceria entre o Abacate e eu, que assino a letra - particularmente emocionante de assistir).


Mas, para além da crítica direta aos governos e instituições, o Abacate Contemporâneo propõe também essa camada mais fina, irônica, onde o rompimento é com a lógica dos costumes mesmo, onde o questionamento é político e social, mas é também e sobretudo moral. Neste show, a distinção ficou evidente e a diferença pareceu mais importante.


A performance de Raquel, dessa vez, nos fez pensar objetivamente na condição das mulheres e esse é um tema certamente caro ao público da Barbada. O trabalho do Abacate Contemporâneo sempre busca esse lugar dos malditos, da escória, do verme que ainda vai se levantar e se vingar de tudo - é a essência primeira do trabalho. Mas existe uma figura que ignora a realidade de hoje, uma figura que rejeitaria inclusive esse show, e essa figura apareceu no palco de domingo: a classe média fake, asséptica.


Raquel, com a escolha do figurino e os textos que declamou ao longo da apresentação, fez pensar sobre essa classe média que subjuga mesmo as suas mulheres, que as substitui por bonecas infláveis e eletrodomésticos - ou por outras mulheres, por que não, desde que sejam mais jovens ou mais operadas.


Raquel não tira a máscara até o final da apresentação. E sustentar esse lema por uma hora sem o apoio da plateia deve ter sido tarefa difícil. Não podemos negar que foi um show mais frio do que aquele a que estamos acostumados quando se trata do Abacate.


No mais, podemos nos tranquilizar sabendo que a banda segue trabalhando. Além do EP de 2018, o show trouxe várias novidades de um disco que deve começar a rolar ainda esse ano. Cada vez mais fundo na crítica, o Abacate Contemporâneo segue brasileiro e dá passos maiores em direção à latinidade. O show pode ser conferido nesse link, junto com o show da banda de abertura, Rodolfo Rainer e o Clube dos Sonhos.


Para escutar o Abacate Contemporâneo, clique aqui.


Por Isabela Cunha



O guitarrista Binho ao lado de Raquel e Sara. | Crédito: Allan Puzzy

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